BIKE PORN

As aventuras da Caloi no pelotão profissional europeu.

Nos início dos anos 90 o carbono ainda era uma raridade no pelotão europeu e até mesmo o TVT 92 era usado por pouquíssimas equipes. A grande maioria das marcas de bicicletas usava os tradicionais tubos cromoly na construção dos seus quadros. Verdadeiras obras de arte. No Brasil, a Caloi dominava o mercado de maneira absoluta, mas mesmo assim dispunha de apenas um modelo de bicicletas destinado ao ciclismo de competição. E num azul horrível, vale ressaltar. O MTB havia desembarcado no país com tudo e as primeiras experiências da Caloi com o alumínio foram justamente em quadros dessa modalidade. Caloi Aluminum com 21 marchas. Branca, amarela e vermelha. Linda bike. Enquanto o alumínio dava as caras nas bikes de MTB da marca, uma lenda belga apareceu para melhorar consideravelmente as bikes de estrada da marca brasileira.

A Caloi by Eddy Merckx foi lançada em 1991, num acordo operacional em que a fábrica brasileira estampava sua marca nos quadros belgas. O Canibal esteve presente no lançamento e tudo. A bike era linda, uma verdadeira obra-prima, e vinha num azul muito mais bonito. A Caloi era uma gigante no mercado de bicicletas, muito maior do que Eddy Merckx sonharia em ser naquele momento. Era um acordo em que ambos ganhariam. Merckx entraria no mercado brasileiro em franca expansão com a recente abertura das importações e a Caloi teria um produto de primeira linha mundial. Ah, Caloi, você já foi melhor de negócio, hein?

Bruno Caloi era um entusiasta do ciclismo, um apaixonado por bicicletas, mais até do que empresário. A equipe de ciclismo Caloi marcou época na história do nosso esporte e revelou alguns dos maiores nomes do ciclismo brasileiro, como Jair Braga, Gilson Alvaristo, Mauro Ribeiro, Luciano Pagliarini e muitos outros. Mas nessa história vamos nos ater a um nome apenas: Wanderley Magalhães. O goiano Wanderley Magalhães era disparado o principal ciclista brasileiro na época e apenas dois anos após o acordo com Eddy Merckx foi correr na Europa. Lógico que com a associação entre Caloi e Canibal dando certo, a ponte para a Europa seria muito mais fácil. Só que não foi apenas Wanderley que chegou ao pelotão profissional em 93. A Caloi também. Magalhães se transferiu para a equipe Lotto, que já usava as bikes Eddy Merckx. Mas para a fábrica brasileira era muito importante ter o principal ciclista do país usando a marca Caloi no pelotão profissional europeu. Jogada de mestre. E que não acabou por aí. Em 94, o colega de equipe de Wanderley, o russo Andrey Tchmil, venceu a Paris-Roubaix numa Caloi by Eddy Merckx, com suspensão dianteira e batendo o favoritíssimo Johan Museeuw. Em 95, foi a vez da equipe Motorola usar as bikes Caloi, ao lado da Lotto. A marca brasileira estava não em uma, mas em duas equipes profissionais europeias. Ah, Caloi… 95 foi o ano da primeira vitória de Lance Armstrong no Tour de France, justamente a etapa após a morte de seu colega de equipe, o italiano Fábio Casartelli. Fábio, que era o campeão olímpico de estrada, caiu numa descida durante a 15° etapa, bateu a cabeça no chão e morreu na hora. Tanto a tragédia com Fábio Casartelli quanto a vitória do texano no dia seguinte aconteceram a bordo de uma Caloi by Eddy Merckx. Lance tem a bike em que ganhou a etapa exposta em sua loja de bicicletas, a Mellow Johnny’s

O mesmo quadro da equipe Motorola foi usado na equipe Caloi brasileira. Tive a oportunidade de ver uma de perto na Lazzaretti em Brasília. A bike pertence a Jamil Suaiden, ex-ciclista da Caloi. Foi uma das bikes de aço mais lindas que já vi.

A aventura da Caloi na Europa durou até 96 com a Motorola. Depois disso, a marca entrou em declínio até ser vendida para um grupo de investidores. Bons tempos esses onde uma marca de bicicletas brasileira conseguia alçar vôos desse tamanho. Chegar à elite do ciclismo como a Caloi conseguiu não é pra qualquer um. A bike podia até ser uma Eddy Merckx, mas era a marca Caloi que aparecia na foto do vencedor.